Quarta-feira, 1 de Julho de 2009

Humilde sugestão para os cinemas

Hoje em dia ninguém paga inteira no cinema, a não ser, claro, eu e meu amigo Marechal Alegre. Dois notórios zé-manés, vai lembrar alguém.

A tragédia é que me falta coragem para falsificar a carteirinha de estudante. Sei que todo mundo falsifica e que ninguém nunca foi nem será preso por causa disso. Mas eu, justo eu, não dou conta. Resultado: pago inteira desde o término faculdade.

Não vejo problema em baixar música da internet, furar sinal vermelho de madrugada e fazer barulho depois das 22 horas. Mas acho desagradável cometer certos delitos. Principalmente parar em vaga reservada para deficiente ou idoso, jogar lixo na rua e falsificar a carteirinha. Fico achando que se incorrer num desses deslizes, perco o direito, por exemplo, de me revoltar com os desvios do Congresso.

Por isso tenho uma sugestão para os cinemas. Fazer uma promoção para quem paga inteira. Algo no gênero: “pague inteira e ganhe 50% de desconto”. Assim ninguém mais precisaria falsificar a carteirinha e nós pouparíamos os bons cidadãos de se desviarem do bom caminho. Seria muito cívico.

Sexta-feira, 26 de Junho de 2009

Estão ceifando a minha juventude

Sexta-feira eu estava passando de carro e vi, num bar lá perto de casa, um monte de gente fantasiada, uns de diabo, outros de anjo. "A batalha pelas nossas almas", pensei. Mas era tudo, na verdade, uma campanha do Detran para educar sobre os riscos do álcool ao volante. Que espirituoso. Aquilo me fez revisitar uma velha tese.

A tese de que estão ceifando a minha juventude. Existe um empenho das autoridades de Brasília, quase uma obsessão, em transformar a cidade na capital da ordem absoluta, onde não sobreviva o menor resquício de transgressão ou de agito. É daí que vem, por exemplo, a empulhação do álcool zero. E também a lei seca, que fecha bares e restaurantes à meia-noite em dias de semana e às 2 da madrugada no sábado. Mais: contagiados pela conduta oficial, os cidadãos adotam medidas parecidas em casa. Acham-se cobertos de razão quando reclamam com os vizinhos que ousam fazer uma reuniãozinha que ultrapasse as 22 horas. Brasília se esforça em procurar maneiras de acentuar o próprio marasmo.

Confundem ordem com pasmaceira, rigor com intolerância e, sobretudo, acham que combater o arruaceiro é o mesmo que combater aquele que se diverte. São incapazes de enxergar as nuances que diferenciam um do outro. É a lógica da inspetora de colégio: se as crianças estão se divertindo, é porque alguma estão aprontando.

Concordo que quem bebe não pode dirigir. Mas o espírito dessas incontáveis blitze que espalham suas arapucas pela cidade não é evitar acidentes de trânsito. Eles até que falam que é, mas não é, não é! (desculpem, me exaltei). O objetivo é aporrinhar quem quer - oh, pecado! - gozar um pouco de entretenimento. Se quisessem mesmo diminuir os acidentes, inventariam também uma maneira de multar quem dirige com sono, ou quem está com pressa de chegar ao trabalho, quem brigou com a namorada e, principalmente, quem carrega uma grávida em trabalho de parto no banco de trás. Dirigir sob essas condições é perigoso também.

Estou exaltado, vão perdoando. É porque, morador de Brasília, sinto que minha juventude está sendo ceifada. As autoridades querem controlar toda a minha vida. Acham que eu não posso ir a uma pizzaria às 2 da manhã, por isso fecham todas as pizzarias. Que eu não posso tomar uma taça de champanhe na casa da minha tia no aniversário dela e depois voltar dirigindo. Que eu não posso conversar debaixo do bloco com os amigos durante a madrugada. O patrulhamento é tão exagerado que mês passado fui parado em duas blitze no intervalo de cinco dias. Se eu fosse bandido, teria sido capturado duas vezes na mesma semana. Mas, que coisa, eu não sou bandido.

Se os jovens da cidade não tinham uma causa pela qual lutar, aí está ela. Vamos nos bater contra a ingerência do estado policialesco em nossas vidas. A geração passada se orgulha de ter vivido sob a ditadura, tempos de resistência e brios. Pois bem. Em mais nada ficamos a dever agora, já podemos olhar nossos pais nos olhos. Habemus anos de chumbo. Só que essa atual ditadura tem uma sutileza: ela não se importa, como antigamente, em nos privar dos direitos políticos. Sua crueldade vai além. Quer nos privar da juventude.

Terça-feira, 12 de Maio de 2009

A mulher do retrato

Largou tudo e resolveu abrir uma barraca na praia (como nas propagandas). Deixou para trás um excelente emprego, imóveis e ações na bolsa. E um passado talvez dolorido.

Já fazia dez anos.

Na cidadezinha do litoral foi muito bem-recebido. Contratou uma cozinheira que preparava a comida da barraca. Senhora muito popular e, por extensão, fez do patrão um sujeito querido também. Ele não demorou a fazer amigos.

Ninguém sabia o motivo que tinha trazido aquele homem para um lugar tão remoto. Desconfiava-se, porém. Atrás do balcão, no alto da parede, ele tinha pendurado o retrato de uma mulher. O retrato ocupava o mesmo lugar há dez anos. Quem chegava à barraca dava de cara com a moldura. Dizia-se na cidade: "aquela foto deve explicar tudo".

Mas o dono da barraca não gostava de falar no retrato. Quando algum curioso mencionava o assunto, ele se saía com frases mais ou menos assim:

- Vento sul. Amanhã será bom para as ostras.

Quanto mistério! Quanta obscuridade! As mais loucas conjecturas iam sendo formuladas. Certo era que se tratava de um amor despedaçado. Mas despedaçado em quais circunstâncias? Trágicas? Banais? Cinematográficas? Essa dúvida é que matava.

Passaram-se os anos.

Até que um dia a mulher do retrato foi vista na praia. Fora uma ruga perto da boca e o cabelo cortado, não tinha mudado praticamente nada. Grande frisson causou aquela aparição.

A mulher caminhou em direção à barraca - não podia ser diferente. Todos os olhos a acompanhavam. Quando ela chegou ao balcão, pareceu não notar o retrato. O dono se aproximou. Disse ele:

- Pois não?

E ela:

- Eu queria um coco. Tem coco?

- Gelado ou natural?

- Gelado, se tiver.

Silêncio enquanto o homem busca o coco. As pessoas que discretamente chegaram perto para acompanhar o fatídico encontro prendem a respiração. Aguardam algo grandioso para qualquer momento.

O homem volta:

- Aqui está. São dois e cinquenta.

- Obrigada.

- Obrigado você.

A mulher dá meia-volta e vai embora. O homem fica limpando uma sujeira no balcão. A cozinheira, completamente aturdida, pergunta quase aos berros:

- Ela aparece aqui depois desses anos todos e você não faz nada?

O patrão agora removia um fiapo de coco da camisa:

- Não era ela. Era a irmã gêmea.

Quarta-feira, 22 de Abril de 2009

Um registro em meio às trevas


Por obra do imponderável e de uma reforma aqui em casa, tive que escrever meus textos à luz de velas nesta madrugada, como pode ficar comprovado na foto acima.

Se vissem passar um morcego pela minha janela, diriam: ali está Byron trabalhando.

Se ouvissem uma sequência de tosses: Álvares de Azevedo voltou da taverna.

Terça-feira, 21 de Abril de 2009

Meio ogro, meio pássaro

A esta altura metade do planeta já deve ter assistido ao vídeo da Susan Boyle. Não é pra menos. Eu mesmo nunca vi nada mais bonito na minha vida. Quando Susan - a escosa feia, gorda, desempregada, de 47 anos e virgem - sobe ao palco, a gente fica com a impressão de que está diante de um equívoco da natureza. Mas basta ela cantar a primeira nota para nos darmos conta exatamente do contrário.

Dizem que a Demi Moore chora ao ver o vídeo. Acontece o mesmo com a minha tia Cândida. Eu ainda não cheguei a esse ponto, o que de modo algum diminui o valor da Susan.

Por que tanta gente se emociona com ela? Acho que a Susan, sem querer, nos poucos minutos de sua perfomance, escancarou três contradições chocantes:

A contradição social: por mais que a sociedade se julgue avançada e esclarecida, ainda condena os indivíduos baseada exclusivamente na aparência. Foi o que os jurados do programa e também todo o auditório perceberam na hora. Por isso ficaram entre constrangidos e maravilhados diante do que viam.

A contradição da natureza: como uma voz daquela foi parar num corpo daquele? O que passa na cabeça da entidade que determina esse tipo de coisa? Estamos à mercê de um deus traquinas?

A contradição da alma: a própria Susan demorou 47 anos para confiar no seu talento. No fundo, nem ela acreditava no que era capaz. É bem provável que se olhasse no espelho durante esses anos todos e pensasse:

- Não é possível que esta voz esteja saindo daqui.

Susan é um alento para todos que olham para o espelho com descrença. Num vídeo de cinco minutos, consegue dar sentido para milhões de vidas desesperadas. Isso a coloca quase como uma santa. E está finalmente explicado por que Susan nunca se casou e vive sozinha com um gato, o mr. Peebles: não existem homens à altura dela.

(não quero dizer com isso que mr. Peebles seja alguém exepcional)

www.youtube.com/watch?v=xRbYtxHayXo

Quinta-feira, 26 de Março de 2009

"Redima nosso clã"

Muita atenção para a história a seguir.

O ano era mais ou menos 1965. Tempos loucos, aqueles. Minha tia Cândida, então uma doce menininha, morava numa típica cidade do interior goiano. Ao que tudo indica era um lugar bem agradável e até mesmo próspero para os padrões da época. Chamava-se Buriti Alegre, ou coisa parecida.

Essa tia Cândida tinha um hábito: brincar no quintal da casa da avó. Ela não precisava de mais nada, completava-se brincando com suas bonecas. Era a satisfação suprema para aquela alma ingênua.

Mas infelizmente a pobrezinha não tinha sossego. Porque era só pisar os pés no quintal que o filho do vizinho resolvia alvejá-la com grãos de milho. Aquilo, segundo me disseram, machucava muito a minha tia, tanto no corpo quanto na alma. Ela chegava a chorar abraçada às bonecas. E era aí que o moleque jogava mais milho e com mais força.

Evidentemente ele estava, com todo ardor de seu coração juvenil, gostando da pequena Cândida. É que as crianças, e também os adultos, quando querem fazer uma coisa às vezes acabam fazendo outra, completamente oposta. E jogam milho em uma pessoa que, no fundo, gostariam de tratar bem.

Durou muito tempo aquela situação. Não é exagero nenhum dizer que a frágil tia Cândida viveu dias de Faixa de Gaza no quintal da avó, sempre sob intenso bombardeio. Os adultos preferiam não interferir naquilo que eles, com toda sua vivência, sabiam ser nada mais que parte do jogo social entre duas criaturas recém-inseridas no complexo mundo. A avó de Cândida, quando a cena toda começava, limitava-se a dizer apenas:

- Esse Lubinho é um garoto encapetado!

Minha tia nunca correspondeu às investidas de seu pretendente, ao contrário, começou a andar com um outro rapazinho muito mais sensível e que, tão logo soube daquela situação, lhe deu de presente um guarda-chuva. Cessaram os grãos de milho.

O curioso é que Lubinho ficou famoso anos mais tarde, já sob seu verdadeiro nome, que é Delúbio Soares. Todos sabemos o quanto ele desempenhou um papel central na política brasileira recentemente. Mas agora ficou mais fácil de entender alguns de seus atos menos probos e até mesmo de perdoá-lo. Porque não é fácil ser rejeitado da forma como ele foi logo no primeiro amor. Por mais que a gente tente esquecer, são feridas que nos atormentam para sempre, e nos levam a atitudes que, não fosse a profunda desventura, nunca cometeríamos.

O leitor tem, portanto, todo direito de imputar à minha família uma parcela da culpa pela recente derrocada da política brasileira. É um fardo que cabe ao meu DNA carregar. A própria tia Cândida, ela mesma uma grande patriota, não se conforma com o mal que fez ao país e toma remédio para os nervos toda noite.

Até outro dia eu não conhecia esta história. Ela me foi contada por um parente centenário, no seu leito de morte. Ele ficou sabendo que eu tinha um blog e pensou que revelar a verdade para o grande público seria uma maneira de aliviar um pouco o estrago que a família causou. Disse-me o moribundo:

- Redima nosso clã.

Então assumi o compromisso de relatar aqui o caso tal qual ele me foi dito. E prometi que meus filhos fariam o mesmo quando eles tivessem um blog, e também os filhos deles, e os filhos dos filhos deles. É o mínimo que podemos oferecer para nos reconciliar com a pátria.

Perdão, Brasil.

P.S.: o parente centenário que me contou tudo isso no leito de morte milagrosamente curou-se da doença. Foi uma felicidade geral e um tapa na medicina, que já o supunha entre os defuntos. Na última festa de família ele me chamou num canto e disse que a história, na verdade, foi toda inventada, fruto de sua imaginação brincalhona e de um antibiótico meio estranho que o médico lhe dera no hospital. Mas era uma trama tão boa que eu não podia simplesmente descartá-la. E, além do mais, a vida não é feita só daquilo que de fato aconteceu; mas, principalmente, do que poderia ter acontecido.

Sexta-feira, 13 de Março de 2009

Um pequeno (mas valoroso) conto de terror

Duas sextas-feiras 13 consecutivas, uma em fevereiro, outra em março... Que coisa sinistra. Algo de muito sombrio se passa com o mundo. Isso me faz lembrar uma situação que aconteceu comigo no ano passado:

Eu tinha acabado de acordar, era uma manhã como outra qualquer. Mas assim que cheguei ao banheiro, para as abluções matinais, dei de cara com o sobrenatural: no espelho estava escrito, em letras grandes e escarlates: "É HOJE"

Meu Deus! - eu pensei. É hoje o quê? O dia de minha morte? E eu nem tenho um epitáfio ainda! Não vai dar tempo de me despedir de todas as pessoas que eu conheço - apesar de não conhecer muitas. E os filhos que eu não tive? A esposa que nunca amei? O Flamengo que não vi ganhar título importante? Etc.,etc.,etc.

Então comecei a relembrar toda minha vida. Fiquei realmente atordoado. Saí de casa para o trabalho prestando atenção em cada pessoa e em cada canto escuro, porque, afinal, "é hoje". A qualquer momento poderia acontecer alguma coisa.

Foi um dia difícil. Mas lá pelas tantas eu pensei: " e se hoje for, na verdade, o meu dia de sorte? O dia que vai transformar minha vida normal numa existência brilhante? Talvez seja esse o recado do espelho". Resolvi jogar no bicho. Apostei no peru. Fiquei sabendo semanas depois que tinha dado borboleta - o extremo oposto.

E também não custava nada deixar uma mensagem na caixa-postal de metade das colegas do escritório. "É hoje".

Mas o dia já estava terminando e nada de surpreendente tinha acontecido. Emoção reservada para as últimas horas, eu já deveria saber. Na volta para casa fui a pé, para respirar melhor o ar da noite. Houvesse o que eu houvesse, eu precisava estar preparado.

Sentei na cama e esperei o destino se revelar diante de mim. Longas horas. No fundo eu esperava que caísse um raio na cozinha ou que alguém rompesse a porta e entrasse no apartamento trazendo a boa nova. Sabe-se lá os métodos de que se vale o sobrenatural.

Deu a meia-noite. E nada do grande fato aparecer.

Na manhã seguinte, quando acordei, fui para o banheiro. No mesmo espelho e com as mesmas letras escarlates da véspera, agora aparecia escrito, para meu completo desespero:

"FOI ONTEM".